terça-feira, 25 de julho de 2017

Licenciamento - pode parecer simples, mas...

Aos olhos dos que não conhecem muito bem o mercado de licenciamento, os clubes de futebol do Brasil - e até algumas confederações que se arriscam nesses projetos - não conseguem resultados satisfatórios por não “saberem trabalhar” essa atividade.
Não entrarei aqui no mérito de julgar os “acusados”. Acho mais produtivo explicar o processo sob a ótica de mercado para que o próprio leitor tire suas conclusões.
Primeiramente é preciso entender que não basta ter ideias acerca de quais categorias de produtos poderiam ser licenciadas com a marca de um time de futebol ou de uma confederação. Isso qualquer um tem, mesmo porque essas ideias, na maioria das vezes, se baseiam nos próprios anseios ou em observações sem qualquer análise científica.
O mais importante antes do desenvolvimento do produto – deixando claro que a avaliação quanto à idoneidade e qualidade do licenciador já esteja satisfeita – é analisar o potencial de vendas, o qual passa pela intenção de compra tanto do consumidor final quanto do varejista. Valendo ressaltar que intenção de compra não significa efetivamente compra.
É fundamental também entender que o varejo, em sua decisão para ter os produtos em seu portfólio, precisa negociar condições relacionadas a valores e prazos de pagamento, além de ter que definir a quantidade de cada produto e time. A mesma dúvida quanto à previsão de vendas respinga sobre o processo de fabricação, o qual envolve ações como compra de insumos, armazenamento desses e planejamento de produção.
Há ainda que se considerar nessa lista de “desafios”, a concorrência que o varejista e o próprio licenciado oficial enfrentam por parte dos produtos piratas.
Em relação a essa concorrência, precisamos admitir que os próprios clubes, na ânsia de auferirem receitas, têm sua dose de responsabilidade, pois à medida em que permitem o licenciamento de uma mesma categoria de produto para vários licenciados, provoca uma competição entre esses que, diante de um mercado pouco maduro, podem acabar apelando para práticas, digamos, menos formais para remunerarem seus investimentos.
Somado a isso, quanto maior o número de produtos de uma mesma categoria, maior é o risco de pirataria, o que prejudica toda cadeia, a saber:

  • Licenciados, que passam a enfrentar concorrentes com preços e "capilaridades melhores", pois esses não arcam com grande parte dos custos com impostos.
  • Clubes, que deixam de receber os royalties - já que a venda informal não permite o controle -, e passam a ter suas marcas em peças fora do padrão de qualidade requerido e vendidas em locais cuja associação ao clube é maléfica.
  • Varejistas que, ao terem que competir com ambulantes que não pagam impostos, não obtêm o giro necessário dessas mercadorias e assim preferem tirá-las de linha.
  • Torcedores que, ao comprarem e usarem produtos piratas, deixam de ajudar o clube de coração e disseminam uma imagem ruim da marca do clube, visto tais produtos não oferecerem a qualidade e estética exigida.
Como podemos ver, o processo não é tão simples quanto os “especialistas” gostam de sugerir em redes sociais, afinal de contas, desenvolver mercado e criar cultura de consumo são atividades que necessitam de investimento e tempo.
Muito provavelmente, os tais “especialistas” mais enfatuados não darão o braço a torcer mesmo depois desses argumentos e, provavelmente citarão as receitas dos clubes europeus advindas dessa atividade na ânsia de terem razão, ocorrerão, no entanto, no erro de esquecer que o patrocínio de material esportivo entra como licenciamento e que a variedade de produtos fabricados por essas marcas têm valor agregado maior e uma capacidade de distribuição mais abrangente. Não obstante a essa característica, os demais bens ajudam a complementar o portfólio e ajudam a fortalecer o conceito.
Os mais teimosos poderão ainda alegar que algumas empresas de bens de consumo e de serviços adotam o licenciamento como ferramenta para promover e/ou posicionar seus produtos. É verdade, só que tais empresas, além de serem licenciados e não licenciantes como os clubes, já vendiam e distribuíam para os principais varejistas seus outros produtos antes do licenciamento. 
Diante desse cenário, é possível concluir que o mercado brasileiro de licenciamento no esporte está muito abaixo do efetivo potencial, o que pode ser revertido.
O modelo adotado pela NBA poderia ser um bom exemplo a ser seguido. Nesse, a liga fica responsável pelas negociações com os potenciais licenciados e partilha os resultados entre as franquias, ressalvando que essa conduta parte da premissa que quanto maior o grau de competitividade no esporte, maior sua atratividade, ou seja, o equilíbrio orçamentário entre as equipes é condição básica para seu fortalecimento.
Contudo, ciente de que a constituição de uma liga é um processo demorado, surge como solução paliativa a união dos clubes para a gestão do licenciamento, o que resolveria parte dos problemas relacionados à seleção de produtos e de empresas licenciadas, assim como os de distribuição de mercadoria e controle dos royalties.
Sonhar não custa, quem sabe chegaremos no dia em que todos os clubes acreditarão que a competição deve ficar restrita ao campo.


terça-feira, 18 de julho de 2017

Onde fica a comunicação?


Comumente confundida com marketing de forma errônea, a comunicação é uma área que costuma suscitar grandes discussões, não só pela enorme quantidade de supostos especialistas no assunto, mas também pela própria complexidade da ciência, a qual, aliás, abriga diversas habilitações.
Tomando como base o mercado corporativo, vejo a comunicação subdividida em quatro grupos:

  • Publicidade, que geralmente fica subordinada ao marketing e trata de todo relacionamento com as agências que cuidam das marcas, produtos e serviços da empresa e respectivas soluções off-line, online, redes sociais, etc. 
  • Relacionamento com a imprensa, que é feito através de uma assessoria interna e/ou externa. 
Quando se terceiriza essa função, o canal com o fornecedor pode se dar através da própria área de marketing do contratante ou da própria presidência. Em ambos os casos é fundamental que todos os demais departamentos que venham a usufruir da assessoria de imprensa tenham relacionamento estreito e frequente com os agentes evolvidos. 
Essa ferramenta, se bem utilizada, pode ser muito útil para fortalecer “espontaneamente” algumas iniciativas, e também para gerenciar crises causadas por eventuais problemas.
  • Comunicação interna, voltada aos colaboradores, estagiários e prestadores de serviços, podendo ser subordinada ao marketing, que passa a ter a área de Recursos Humanos como cliente ou ao próprio RH, que contrata agências para a execução dos trabalhos.
  • Relação com investidores (RI), costuma dispor de uma estrutura própria, visto ter como interlocutores bancos, agências de classificação de riscos, consultorias e os próprios investidores, o que requer uma comunicação especializada. Utiliza também os serviços da assessoria de imprensa.


Penso que não existe uma “receita de bolo” pronta para a definição de um organograma que contemple toda essa gama de macro atividades ligadas à comunicação, visto não haver uniformidade de objetivos, de disponibilidade de recursos e de estrutura organizacional entre as diversas instituições, além do que, todas essas variáveis são dinâmicas, o que exige alterações constantes na linha organizacional.

Independentemente dessa não “padronização”, nenhuma instituição pode prescindir de ter uma comunicação integrada que, mesmo com públicos distintos, obedeçam a uma estratégia definida e com a qual se obtenha uma maior sinergia das ações e não sofra com as nocivas ações independentes e contraditórias.

No futebol, a situação dos clubes é um pouco diferente, pois o modelo brasileiro não contempla investidores, o que faz com que a área de "relação com investidores" deva ser substituída por "relação com torcedores e sócios". A parte relativa à assessoria de imprensa, por suas vez, pode ser subdividida em duas:
(i) uma para cuidar do institucional não apenas em relação à editoria esportiva, mas também às relacionadas a negócios, economia e todas as demais que comportem notícias sobre o que vem sendo implementado em termos de gestão;
(ii) outra para tratar do que acontece estritamente com os agentes ligados às atividades esportivas.
Em termos de organograma, assim como acontece nas empresas, não há uma “receita de bolo”, porém é fundamental que publicidade, relacionamento com sócios/torcedores e assessoria de imprensa sejam integradas em termos de estratégia e linguagem.



terça-feira, 11 de julho de 2017

Embaixador da Marca


A expressão que dá título ao artigo tem estado muito em voga principalmente entre as marcas de material esportivo, remetendo talvez à figura do chamado “garoto ou garota propaganda” para os mais distantes do mundo do marketing.
A função básica do “garoto propaganda” é emprestar sua imagem para alguma marca em troca de uma remuneração. Geralmente são escolhidos pela sinergia que possuem com os valores que serão comunicados ou simplesmente pela popularidade. Suas aparições ocorrem nos eventos das empresas, nas mensagens publicitárias ou mesmo de forma espontânea usando os produtos da marca. Os resultados costumam ser satisfatórios, desde que, é claro, quando selecionados corretamente.
Não obstante a isso, há riscos na iniciativa. 
A possibilidade do contratado se envolver em problemas/escândalos é um deles, afinal qualquer ser humano é passível de falhas. Além desse risco, quando o escolhido é usado também por outras marcas, a fixação da associação pretendida fica prejudicada, isso sem falar num provável custo maior de contratação em função da maior demanda.
E o “embaixador da marca”?
Antes de elencarmos as características buscadas nesses projetos, vale refletir sobre o forte crescimento que as redes sociais estão tendo como meios de divulgação, o que não necessariamente tem relação com o custo - em tese - mais baixo quando comparado com a mídia tradicional. 
Esse movimento, causado principalmente pelo maior acessibilidade das pessoas a aparelhos como smartphones e tablets,  faz com que o hábito de se informar e trocar mensagens se dissemine, quadro que pode ser atestado através de um estudo do Instituto Reuters que indicou que 72% dos brasileiros se informam através de redes sociais.
Diante desse cenário, as marcas passaram a procurar personalidades com expressiva popularidade nas redes sociais para se tornarem seus embaixadores. Esses, ao contrário do “garoto propaganda” não ficam sendo a "cara da empresa" e, pelo fato de a associação não ser tão direta, suas postagens ganham um caráter mais informal de opinião ou menção, sem a aparência dos tradicionais endossos na linha do “eu recomendo”. 
Adicione-se a essa característica, o fato de não ser mandatório que o embaixador possua um passado ou perspectiva de excelentes performances, o que proporciona na maioria das vezes custos menores, ainda que reconhecidamente sejam grandes influenciadores digitais.
Reparem que, ao contrário dos “garotos propagandas”, o embaixador não precisa ser alguém com popularidade em todas as classes, mesmo porque, a publicidade nas redes sociais tem uma maior facilidade de ser segmentada em relação aos tradicionais anúncios de televisão, cuja abrangência é mais massificada.
O embaixador, na verdade, nem precisa participar de todos  os eventos ou demais ações da marca que o contratou, bastando publicar posts em redes sociais para conseguir um expressivo e direcionado engajamento. 
Essa tendência não significa, no meu modo de ver, que as mídias tradicionais estão fadadas ao fim, como muitos tentam preconizar, usando como argumento a declaração do CEO da Adidas de que a empresa não investirá mais na mídia em TV. 
Esses "profetas", no afã de justificarem seus pontos de vista, esquecem – ou ocultam  que a marca alemã, mesmo que não compre mídia nesse meio, está sempre presente nas TV’s graças aos patrocínios a atletas, equipes, eventos e até celebridades. 
Mesmo porque, a variedade de alternativas de mídia deve conduzir as empresas para um cenário onde, baseadas em análises eficazes das métricas, haja uma integração e complementaridade entre as diversas opções. O próprio fenômeno do second screen,  já abordado no artigo "Você vai ao estádio?" - http://halfen-mktsport.blogspot.com.br/2013/11/voce-vai-ao-estadio.html, corrobora para essa conclusão.


terça-feira, 4 de julho de 2017

As celebridades vestem camisas

Tem sido bastante comum ver celebridades internacionais vestindo camisas de times de futebol brasileiros quando visitam nosso país.
Vejo essa ação bastante interessante para o clube, pois consegue um bom retorno de mídia espontânea para sua marca, para seus patrocinadores - inclusive internacionalmente - e se associa ao ídolo aqui presente. 
Para que tais resultados ocorram é fundamental que a camisa seja respeitada, o que parece óbvio, porém não custa lembrar o incidente ocorrido com o baterista da banda Red Hot Chilli Peters que, ao receber a camisa de um clube carioca, fingiu utilizá-la como papel higiênico.
Voltando à associação entre marcas, não creio que haja um estudo detalhado para avaliar se a imagem da celebridade é sinérgica ao posicionamento adotado pelo clube, contudo se consegue exposição e talvez até atraia simpatizantes que tenham a tal celebridade como ídolo, isso sem falar num eventual aumento de demanda pela camisa.

Diante desses benefícios, muitos até poderão questionar se a ação não pode vir a ser considerada como uma espécie de ambush marketing, o popular marketing de emboscada.

Em minha opinião é sim, afinal de contas os clubes estão auferindo benefícios sem terem pagos por eles. Caberia aqui como defesa para o clube, o fato de estarem se antecipando a um rival nesse tipo de iniciativa – uma espécie de legítima defesa do ambush marketing –, ou que não tiveram participação na operação, pois ele pode ter sido executada por algum torcedor.
Ainda pelo lado dos clubes, é importante contemplar a situação em que a própria celebridade, encantada com a beleza da camisa e a história vencedora da equipe, resolve comprar o material para vestir sua família. Apesar de relativamente raro, isso ocorreu na visita do goleiro Buffon ao Rio de Janeiro, onde o jogador comprou o uniforme do Fluminense para seus filhos.
Aproveito a menção à ingerência do clube para questionar se os patrocinadores que têm suas marcas nas camisas desses times são consultados quando a iniciativa parte assumidamente pelo clube. Dentro de um preciosismo, que reconheço fazer parte de um mundo "ideal", penso que deveriam, pois certas celebridades podem não possuir uma imagem que a empresa almeja associar a sua marca. 
Depois de abordado o lado dos clubes e dos patrocinadores, passemos para o lado das celebridades. 
Não sei até que ponto há uma preocupação por parte dessas celebridades e de seus empresários quanto à exploração – sem remuneração – e quanto à possível rejeição que um ato, aparentemente inocente, possa despertar nos fãs.
Particularmente, não vejo com bons olhos essa atitude, tendendo a achar que os benefícios não compensam os riscos que as celebridades correm no calor da ação.
Sendo que os riscos não se resumem à eventual rejeição ou algum desalinhamento de posicionamento, havendo também que ser ventilada a hipótese de um eventual conflito de patrocínios, pois muitas vezes a celebridade veste uma camisa cujos patrocinadores ali expostos são concorrentes dos seus patrocínios individuais.
Diante das argumentações acima, é razoável admitir que a operação “vestir celebridade” tem um bom potencial de retorno, carecendo de uma formatação que permita tanto à celebridade quanto aos clubes auferirem ganhos, salvaguardando os eventuais problemas de conflito de interesses, exclusividade ou mesmo de mau uso da camisa.



terça-feira, 27 de junho de 2017

Multinacionais no esporte


Sem grande rigor, podemos definir uma instituição multinacional como aquela que desenvolve sua atividade em mais de um país. Historicamente esse conceito data do início do século XVI, influenciado pelo processo de colonização e expansão imperialista.
Fatores ligados à produção contribuíram para a evolução desse processo, o que favoreceu a globalização, além das fusões e aquisições entre corporações.
No esporte, até recentemente, quem mais se aproximava do conceito de uma instituição multinacional eram as federações internacionais das modalidades esportivas, as quais regem a expansão e o desenvolvimento da modalidade em outros países. Devendo ressalvar que, mesmo auferindo receitas diretas através de algumas taxas e indiretamente em função do crescimento da modalidade, a analogia não se sustenta visto a “matriz” não ter nenhum tipo de ingerência na escolha do gestor, nem tampouco nas estratégias, operações e resultados financeiros.
No entanto, uma atividade em franco desenvolvimento como o esporte não pode ignorar os benefícios desse tipo de operação, afinal de contas há nos mercados mais maduros uma saturação natural nas praças de origem. Esse cenário, aqui usando o futebol como modelo, faz com que a busca pelo crescimento de receitas envolva a competição por novos consumidores/torcedores, o que exige investimentos mais vultosos para se buscar o público infantil e/ou trazer os fãs pouco fanáticos que torcem por outra equipe. Também depende de verba qualquer campanha direcionada ao aumento de consumo dos atuais torcedores.
Muito provavelmente, o parágrafo acima deve ter remetido o pensamento às iniciativas de internacionalização que vêm sendo muito bem executadas por algumas das grandes equipes globais, porém, apesar de reconhecer que tal projeto tem grande potencial para geração de receitas, devemos ter em mente que passa bem longe do conceito de “multinacional”, visto não haver nenhuma espécie de operação do "negócio-fim" do clube, ou seja, tais clubes não disputam partidas e campeonatos nos países em que desbravam. Numa analogia ao mercado corporativo, podemos considerar esse tipo de atuação como uma espécie de escritório comercial.
Assim, a melhor aplicação do conceito de multinacional nesse contexto pode ser encontrada ainda em algumas poucas instituições, entre as quais valem ser citadas:
O grupo City Football Group, sob a tutela do Manchester City e que tem como principal controlador Abu Dhabi United Group. Fazem parte da corporação: o próprio Manchester City, mais o New York City (EUA), o Melbourne City (Austrália) e o Yokohama F. Marinos (Japão).
A Red Bull que possui, além da famosa equipe de Fómula 1, o New York Redbulls (EUA), o Red Bull Salzburg (Áustria), o Red Bull Leipzig (Alemanha) e o Red Bull Brasil.
O Atletico de Madrid com filial na Índia – Atletico Kolkta, participação de 35% no Lens da França e que está acertando a aquisição do Atletico San Luis do México.
No Brasil, temos o Fluminense que detém 77% do Samorin da Eslováquia.
Os objetivos desses projetos são variados, pois dependerão das estratégias dos grupos controladores, porém, o que todos têm em comum é busca pela maior valorização da marca, assim como por melhores resultados financeiros.


terça-feira, 20 de junho de 2017

A vida é feita de escolhas


Apesar da frase que dá título ao artigo poder ser enquadrada no rol dos enfadonhos jargões, tamanha a quantidade de vezes que é proferida em discursos e conversas, não há como desprezar sua veracidade. Sendo certo também que na grande maioria das vezes, as escolhas acontecem de forma quase que automática, aproximando-se de um hábito.
Entretanto, algumas situações requerem dos decisores mais tempo e “estudos” para a definição. Poderia fazer menção  aqui à roupa que se vai vestir ou ao prato a ser selecionado entre as inúmeras variedades de um cardápio, mas para não fugir do objeto do blog, abordarei um tema de extrema complexidade para um gestor: a escolha das pessoas para fazerem parte de sua equipe.
Ao contrário de outras variáveis que também carecem de estimativas - tais como as vendas de um produto - onde elaborados modelos estatísticos ajudam a diminuir a incerteza da previsão, a seleção de um profissional, mesmo que auxiliada por métodos de avançado desenvolvimento tecnológico, é uma atividade com elevado grau de dificuldade, visto envolver fatores de percepção e de avaliação sobre pessoas.
Como ilustração para essa afirmação, utilizaremos os drafts das ligas norte-americanas, os quais vêm a ser o processo de escolha de jovens jogadores e/ou estrangeiros para fazerem parte das equipes que disputam as competições.
Embasadas por extensos estudos estatísticos, observações e conversas, as franquias na ordem que lhes cabem procedem as escolhas daqueles que julgam como os mais promissores e/ou adequados aos seus objetivos. Dessa forma, os primeiros a serem escolhidos são, pelo menos em tese, os melhores jogadores daquela safra.
Continuando o exercício, vale examinar a trajetória de alguns jogadores após os drafts.
Primeiramente pegaremos os casos dos que estiveram entre os primeiros a serem escolhidos e corresponderam às expectativas.
Temos nessa relação como número um nas escolhas: Magic Johnson, LeBron James, Shaquille O’Neal, Tim Duncan, Pat Ewing e David Robinson, entre outros.  Ainda na seleção dos bem ranqueados na escolha estão: Larry Bird (6ª escolha), Scottie Pippen e Charles Barkley (ambos 5ª), além de Michael Jordan, que foi o 3º a ser escolhido.
Vamos agora para a situação dos jogadores que estiveram entre as primeiras opções e não renderam o que era esperado. Nessa condição encontramos Sam Browie, escolhido à frente de Jordan e Greg Oden, o número 1 no draft que teve Kevin Durant como segundo.
Não faremos nesse artigo nenhuma referência aos jogadores que não estiveram entre os dez primeiros e também não se tornaram ícones da modalidade. Passaremos assim para os que mesmo não estando entre os dez primeiros se tornaram lendas do esporte, dessa relação podem ser citados: Kobe Bryant (13ª posição), Karl Malone (idem), o brasileiro Oscar (131ª) e saindo do basquete para o futebol americano temos o caso mais emblemático, o do quarter back Tom Brady, cinco vezes campeão do SuperBowl e que foi o 199º escolhido em seu draft.
Tais erros, se é que assim podem ser considerados, têm como justificativa as variáveis intangíveis de qualquer atividade.
Um jogador pode treinar bem, ter ótimos indicadores de performance, mas talvez nenhum desses tenha sido alcançado em  situações de pressão similares aos que uma liga profissional e seus jogos decisivos impõem ao jogador.
Trazendo para o lado corporativo, vemos que muitas vezes nem análises de currículos, entrevistas, testes e conversas com ex-colegas e chefes são capazes de garantir a escolha do melhor candidato. Indo além, nem mesmo o aproveitamento e/ou promoção de um profissional que convivemos e conhecemos, nos dá a segurança da decisão.
O que pode ser explicado pela mesma razão que aplicamos ao atleta: a quase impossível detecção de seu comportamento em situações que, até então, nunca foi submetido.
Não creio que algum dia seja possível trabalhar essa variável, porém, só em reconhecer que ela existe já  deixa os processos de seleção com graus de expectativas mais adequados à realidade.


terça-feira, 13 de junho de 2017

A permuta e o patrocínio

Tanto clubes como confederações e até promotores de eventos costumam viver numa busca constante por maiores fontes de receitas, sendo que parte significativa dessas são oriundas de patrociínio máster, da venda do title sponsor ou da comercialização do naming rights.
Há, no entanto, outras possibilidades de se obter patrocínios ou apoios sem que necessariamente isso envolva transferência de dinheiro. Refiro-me ao que comumente chamam de permuta.
Essa ação consiste na inclusão de alguma marca em espaços destinados à exposição de patrocinadores e apoiadores em troca do fornecimento de algum serviço e/ou produto por parte do detentor da marca. Uma ação corriqueira, que se banaliza na medida em que produtos/serviços com pouca ou nenhuma utilidade entram nesse tipo de operação com o objetivo meramente de terem suas marcas expostas.
Nesse contexto não é raro encontrar empresas de um mesmo ramo de atividade convivendo no mesmo espaço, e quando isso NÃO acontece é devido à exigência de exclusividade por parte do patrocinador. Pleito justíssimo, diga-se de passagem, porém, tais diretrizes deveriam partir do patrocinado, o qual, por sua vez, precisa ter bem definida a relação de categorias pelas quais se busca patrocínio.

Essa definição, além de facilitar a prospecção, já que permite traçar um desenho das possibilidades em cada categoria, ainda auxilia na valorização das propriedades, pois permite ao patrocinador usar em todas as suas comunicações a nomenclatura “patrocinador oficial” da instituição X ou do evento Y.
A escolha das categorias a serem comercializadas pode ser feita de duas formas, que não são excludentes: 

  • Fazendo um benchmarking dos principais clubes do mundo e do comitê olímpico internacional.
  • Avaliando com a área de suprimentos as principais demandas da  organização.

Estima-se que nos últimos Jogos Olímpicos, o equivalente a 60% do que foi contabilizado como patrocínios e apoios foram efetivamente pagos na forma de permuta. Nas edições passadas esse percentual nunca tinha ultrapassado os 50%.
Nesse montante estão contemplados, entre outros, 5.000 carros da Nissan, tablets da Samsung e seguro saúde da Bradesco.
Apesar desse movimento ter sido motivado pela crise econômica do país, podemos, na verdade, estar diante de um movimento de racionalização das relações comerciais e mercadológicas entre as partes.
Reforçando o que foi dito acima, a permuta pode ser uma excelente oportunidade para patrocinadores e patrocinados, desde que sejam tomado os devidos cuidados para não envolverem marcas sem associação ao evento em si, como por exemplo, o fornecimento de cigarros para um evento de cunho esportivo.




terça-feira, 6 de junho de 2017

O varejo não acaba, se transforma

O fraco desempenho das vendas dos produtos licenciados de clubes brasileiros se deve, entre outros motivos, aos problemas relacionados à cadeia de distribuição, a qual tem o varejo como um dos principais componentes. 
Na busca pela solução desse problema, alguns clubes buscaram abrir suas próprias lojas, grande parte sob o modelo de franquia, porém, os resultados não foram muito satisfatórios, o que levou ao fechamento de muitos desses estabelecimentos. 
Deixaremos para outra ocasião uma análise mais detalhada sobre o mercado de produtos licenciados para focar aqui mais especificamente o setor varejista, alvo frequente de matérias que correlacionam o fechamento de lojas com o fim do modelo tradicional de lojas físicas.
Sobre o fechamento de lojas é importante esclarecer que essa tendência não ocorre em todos os segmentos do setor varejista, os quais englobam restaurantes, farmácias, supermercados, lojas de departamento, petshops e hipermercados, entre outros. Essa observação se faz necessária, pois alguns desses segmentos estão, na verdade, abrindo ainda mais estabelecimentos.
Nesse contexto é preciso compreender que algumas lojas em dado momento concorrentes, localizadas numa mesma área de influência primária - ou até secundária -  e pertencentes a cadeias envolvidas em processos de M&A (fusões & aquisições), são fechadas como alternativa para a melhoria dos resultados operacionais da empresa consolidada.
Tais explicações não pretendem negar que o setor varejista esteja em constante evolução, longe, no entanto, do apocalipse por vezes anunciado.
O processo evolutivo do setor teve seu início no que chamamos single-channel – aqui o ponto físico era o único local de contato entre o varejista e o consumidor -, passando para o multi-channel - onde o cliente pode acessar o estabelecimento através das plataformas física, digital e telefônica sem haver, contudo, integração entre elas – chegando ao cross-channel – ambiente em que o consumidor tem disponíveis vários canais de compra com linguagem unificada -, e culmina no omnichannel, que nada mais é do que o acesso aos diversos canais de compras de forma integrada, ou seja, atuam juntos tanto na venda, como nas promoções e demais interações com o cliente. 
Na prática a interação no omnichannel pode acontecer das mais variadas formas, entre as quais, citamos:
(i) comprando na loja virtual e retirando na loja física poupando o valor do frete;
(ii) praticando preços iguais em todas as plataformas, facilitando assim a pesquisa e fazendo com que o cliente já chegue na loja decidido;
(iii) comprando pelo site e rastreando a entrega pelo aplicativo do mobile;
(iv) vendo e experimentando o produto na loja física para finalizar a compra virtualmente;
(v) monitorando e entendendo o comportamento do cliente através de suas interações com as diversas plataformas, o que permite a elaboração de ofertas exclusivas.
Entretanto, ainda que todos esses benefícios pareçam inquestionáveis, e realmente são já que se consegue agregar conveniência e experiência à compra, deve ser ressaltado que a operação embute alto grau de complexidade, visto haver pontos que, se não forem bem desenvolvidos, podem causar sérios problemas ao modelo, tais como:
- Estrutura fiscal que permita trocas e devoluções em ambientes diferentes sem que causem prejuízos ao negócio.
- Modelos de estimativa de vendas bem acurados, pois a existência de vários canais deixa as previsões mais sensíveis.
- Gestão de estoque eficaz, visto não se contemplar para efeito de inventário o  produto que esteja na mão ou no carrinho do cliente que ainda não passou pelo check-out, o que deixa tal produto disponível para a compra virtual.
- Regras claras quanto ao comissionamento, com o fim de diminuir as desconfianças em relação a uma possível canibalização entre os canais e evitar “brigas” entre eles, que diante da novidade desse novo processo parecem não enxergar que seus maiores ofensores são os varejistas concorrentes.
Como ilustração desse novo cenário, temos as marcas esportivas utilizando o omnichannel como fator estratégico de crescimento, o que pode ser atestado pelo criterioso processo de expansão no número de suas lojas e na cada vez maior integração dessas com as vendas online.


terça-feira, 30 de maio de 2017

Sem nome


A Juventus de Turim realizou recentemente um movimento que, se não inédito, é bastante raro em clubes de futebol: a mudança de forma radical de sua logo / escudo. 
Não pretenderemos nesse artigo entrar no mérito dos aspectos relacionados ao branding, mas sim chamar a atenção quanto ao maior destaque do nome do clube no escudo. Um movimento que parece óbvio quando pensamos no processo de internacionalização dos clubes, já que os potenciais “torcedores” e “simpatizantes” de outros países - menos familiarizados aos símbolos e cores das equipes internacionais - necessitam de uma maior clareza acerca do reconhecimento das camisas e demais produtos dos clubes, os quais costumam ser muito mais instrumentos de demonstração de orgulho e pertencimento do que propriamente de estética.
Pegando os times da série A do campeonato brasileiro de 2017, veremos que nove dos vinte clubes possuem o nome agregado ao escudo e, mesmo assim, grande parte deles misturados a elementos ou com o nome completo - futebol clube, por exemplo -, o que deixa a identificação prejudicada.
Por outro lado, quando observamos o mercado corporativo vemos que o ápice do sucesso de uma marca é quando ela consegue ser reconhecida sem que apareça o seu nome. 
Um processo, a bem da verdade, que não se dá do dia para noite e que deve ser estruturado com o máximo rigor, sob o risco de se danificar todo o brand equity.
A evolução nesses casos tem que ocorrer de tal forma que a identificação e o recall não sejam comprometidos nas gerações futuras, pois da perenidade depende a sobrevivência das empresas.
Para deixar mais claro o entendimento sobre esse processo, vamos citar de forma bem resumida a evolução de algumas marcas que estão no nosso cotidiano.
Começando pelo Mc Donald’s, vimos a marca trazer nos seus primórdios tanto o nome quanto frases que melhor identificassem sua área de atuação. Ao longo do tempo, tiraram as frases e demais elementos que remetiam à alimentação para deixar apenas o nome e a logo, até que atualmente o nome foi extinto.
A Pepsi Cola teve no seu início o nome estilizado como logo. Mais tarde chegou a incorporar a palavra drink para associar o produto ao uso. Outra mudança significativa foi a extinção da palavra cola, passando a se chamar simplesmente Pepsi. As várias alterações culminaram na adoção da logo sem nenhum nome. 
Completam esse grupo de marcas que hoje não carregam o nome em sua logo: Starbucks, Shell, Apple e Nike, entre outras.
Tenho dúvidas se o forte sentimento tradicionalista dos torcedores permitiria que os clubes brasileiros fossem ousados a ponto de alterarem radicalmente seus escudos, porém, mesmo que não se chegue nesse estágio, penso que os clubes que pretendam ter uma política de expansão para outros territórios devam de alguma forma agregar o nome da equipe aos simbolos, evidentemente, que de forma elegante e que não violente o posicionamento e os valores do clube.




terça-feira, 23 de maio de 2017

Gestão sem marketing

Comparado com outras áreas de gestão, o marketing pode ser considerado um campo relativamente novo. Sua origem data da década de 1940, mesmo assim, com um foco mais voltado para vendas.
Basta dizer que até bem pouco tempo atrás era comum ver grandes empresas sem departamento de marketing e muitas das que possuíam o empregavam com uma visão bastante distorcida. 
Com o passar dos tempos, os organogramas passaram a incorporar a área, ainda assim com excessivas distorções conceituais, entre as quais a usual confusão com publicidade e a responsabilidade pelas receitas de curto prazo, que incluem vendas e demais formas de captação de recursos.
Contudo, se tal cenário é uma realidade em empresas, imaginem em instituições esportivas tais como confederações, federações e clubes.
Nos clubes de futebol, a área pelo menos consta nos organogramas, porém, em função das necessidades imediatas e da costumeira fragilidade financeira, o escopo acaba distorcido já que costuma ter um cunho mais tático do que estratégico, isso sem falar na falta de recursos e na estrutura atrofiada.
Já nas confederações brasileiras a situação é muito pior, pois pouquíssimas trazem um departamento de marketing em seu desenho organizacional e muitas das que o possuem não sabem para que serve. 
Esse cenário tem sua causa baseada em dois fatores: (i) falta de recursos para se contratar executivos com experiência na área;
(ii) desconhecimento dos presidentes acerca de gestão, que assim não conseguem identificar a diferença entre marketing e captação de recursos, além de não saberem discernir o que é tático e o que é estratégico.
Ao se fazer um breve comparativo entre as instituições que regem as modalidades esportivas no Brasil e nos EUA, podemos constatar que poucas confederações brasileiras dispõem de um simples organograma, de um plano estratégico ou mesmo de uma definição clara e abrangente dos seus objetivos. Na contramão dessa tendência vale citar a confederação de Rugby que, mesmo sem resultados esportivos significativos, consegue obter mais patrocínios do que outras com desempenhos melhores, fato que credito à sólida experiência do seu ex-presidente em cargos de alta gestão na iniciativa privada. 
Uma visita aos sites das federações norte-americanas nos permite ter uma boa noção da seriedade com que o esporte é encarado e da consequente atenção dedicada aos aspectos relacionados à governança.
Nessa análise, é possível ver que grande parte das federações dos EUA possui o departamento de marketing em seu organograma e as que não incluem essa “caixa” contam com diretores no comitê gestor oriundos de empresas onde eram líderes da área de marketing.
Não obstante à importância dessa condição, deve ficar claro de que de nada adiantará ter um quadro com renomados executivos se o presidente for inapto. 
Na verdade, é inconcebível que alguma confederação esportiva atue sem um plano de negócios que contemple a satisfação de todos os agentes que influenciam direta ou indiretamente a organização da modalidade.
Dessa forma, penso que tão importante quanto verba para se investir no esporte, é saber como obtê-la e aplicá-la em iniciativas que atendam as necessidades de todos os seus stakeholders em condições temporais que permitam a sustentabilidade da modalidade, o que inclui, evidentemente, a própria valorização da marca.
Qualquer coisa diferente disso é mera satisfação de ego ou, quem sabe, coisa pior...



terça-feira, 16 de maio de 2017

Marcas próprias no esporte


O processo de maturação da atividade esportiva fez com que alguns assuntos, totalmente ignorados no passado, passassem a fazer parte das discussões atuais dos fãs de esportes.
Um desses temas é o fornecimento de material esportivo, tanto pelos aspectos estéticos dos uniformes, como também pelos processos atribuídos à eficácia da distribuição. Sem se esquecer, é claro, das avaliações que os torcedores e a imprensa insistem em fazer sobre os "valores" dos contratos.
Nesse novo cenário, repleto de "especialistas", as negociações costumam ser mais complicadas, visto a maior pressão sobre os valores - quase sempre inflados pela mídia e pelos vazamentos “involuntários” e distorcidos por parte dos clubes que querem mostrar competência através de números deturpados.
Diante desses padrões, os representantes dos clubes nas negociações partem em busca de um montante quantitativo maior, o qual é quase sempre incompatível com a capacidade de recursos dos fornecedores.
A queda de braço entre fornecedores e clubes acaba muitas vezes redundando no fim da relação e na busca por uma nova marca de material esportivo, o que não é tarefa fácil, pois a indústria, bem preparada, conhece os números que deixam a operação viável economicamente, restando para os clubes três opções:
-  aceitar as condições que o mercado estabelece;
- apelar para aqueles fornecedores "aventureiros" que, graças à ignorância sobre marketing e finanças de alguns dirigentes, aparecem prometendo cifras mirabolantes e não cumprem;
-  partir para ter sua marca própria, iniciativa que no mercado de varejo é também conhecida como private label, e sobre a qual desenvolveremos esse artigo.
No Brasil, o Paysandu de Belém foi o 1º clube a adotar esse modelo utilizando a marca Lobo que, segundo os dirigentes, tem sido um sucesso.
A mesma estratégia foi adotada pelo Fortaleza com a marca Leão e pelo Juventude com a 19treze.
Nesse modelo, o clube é responsável pela fabricação, comercialização e distribuição dos produtos, o que lhe dá autonomia para precificar e deixar o produto mais atrativo aos olhos dos consumidores, contudo, passa também a incorporar responsabilidades e funções que fogem de sua natureza operacional e vocacional.
Vale citar também o modelo adotado pelo Santos junto à fornecedora italiana Kappa, que atua como responsável pelo desenvolvimento do produto, não pagando nenhuma quantia fixa ao clube e recebendo apenas um percentual do que for vendido. Essas condições conferem um espaço menor para a marca no uniforme – o que propicia ao Santos, mais propriedades para comercializar  – e uma margem maior para o clube.
Creio que as respostas sobre a eficácia desse modelo de marca própria só poderão ser obtidas depois de pelo menos três anos de operação.
Entretanto, é importante ressaltar que as empresas varejistas que optam por ter marcas próprias ou exclusivas - as que não levam o nome do estabelecimento varejista -  o fazem por razões distintas às dos clubes, podendo citar entre elas: 
(i) definição do posicionamento estratégico através da associação a alguma categoria que transfira conceitos subjetivos (light, diet, orgânicos, etc);
(ii) complemento do mix de alguma categoria e com isso propiciar um sortimento maior;
(iii) aumento relativo de seu poder de negociação junto a fornecedores de produtos que concorrem com o da marca própria.
Complementa a diferença entre os dois ramos de atividade, o fato de o varejo possuir toda a estrutura necessária de comercialização, o que abrange pontos de vendas, centros de distribuição e todo know how da cadeia de consumo.




terça-feira, 9 de maio de 2017

Você demitiria um parente?

Quando o técnico Tite foi convidado para dirigir a seleção brasileira de futebol escrevi um artigo - Parente pode? - http://halfen-mktsport.blogspot.com.br/2016/10/parente-pode.html -, que tinha como objetivo a reflexão sobre a contratação de parentes, visto o estatuto da CBF não permitir que o treinador tivesse seu filho como um de seus auxiliares de confiança.
Procurei abordar no texto os pontos e contrapontos da decisão, levando a situação para o campo do mundo corporativo. Pela falta de exemplos concretos, deixei de citar outro problema em relação a esse tipo de contratação: a demissão.
Não que seja fácil demitir alguém, principalmente quando admiramos a pessoa por inúmeras outras características, porém, por uma questão de performance ou mesmo da necessidade de se reestruturar os recursos, o desligamento muitas vezes se faz necessário.
Por mais compreensiva que a parte dispensada seja, é muito difícil que ela não sofra com a demissão, aliás, um sofrimento duplo, o causado pela perda do emprego e o da mágoa. Nessas horas é comum esquecer que se não fosse contratado também não seria desligado. Sentimento absolutamente normal, mesmo que ingrato num primeiro momento.
O caso concreto que ilustra esse texto vem do Los Angeles Lakers, cuja presidente e proprietária da equipe, Jeanie Buss, demitiu numa só tacada o gerente geral Mitch Kupchak e o vice-presidente de operações de basquete Jim Buss. O sobrenome em comum não é mera coincidência, Jim é irmão de Jeanie e coproprietário dos Los Angeles Lakers. Completa o enredo, o fato de a equipe vir com péssimos resultados desde a temporada 2013-14.
Uma decisão extremamente difícil, tanto que, segundo palavras da própria Jeanie, demorou muito tempo para ser tomada.
Claro que esse tipo de situação poderia ser evitada em sua origem, bastaria avaliar e ter coragem para preterir o parente, mas é preciso convir que se trata de uma tarefa absurdamente difícil, até porque sempre haverá a esperança de que as peças se encaixem.
Em empresas, mesmo que não tão frequentes – ou veladas - , podemos ver brigas entre parentes que podem até em último caso levar ao afastamento de irmãos. As consequências são péssimas, pois o clima ruim leva os executivos de mercado que lá atuam a serem avaliados em função das suas opiniões estarem coincidindo com algum dos lados, ou pior, de terem sido recrutados por uma dessas correntes. 
O desenrolar do processo também é fácil de prever, na falta de coragem para levar as brigas até as últimas consequências - no caso desligar os incompetentes, doa a quem doer – os executivos de mercado têm suas cabeças colocadas a prêmio como forma de armistício.
Os resultados operacionais das empresas com esse tipo de problema também não são difíceis de serem estimados, contudo, ainda que a crise sirva de cortina para esconder a fragilidade da gestão, é claro para o mercado o grau de afastamento dessas corporações em relação às melhores práticas de governança. 
É cedo para arriscar um palpite sobre o desempenho dos Los Angeles Lakers na próxima temporada, mesmo porque muitos outros fatores influenciam a performance, mas a coragem para afastar um irmão por não corresponder às expectativas é um excelente sinal de que a instituição está à frente de interesses pessoais.


terça-feira, 2 de maio de 2017

A anistia compensa?

A volta da tenista Maria Sharapova às quadras no torneio de Stuttgart provocou uma série de críticas por parte de algumas rivais, inconformadas com o fato de a russa não possuir a pontuação necessária para participar de um torneio daquela expressão.
O convite a atletas para participar de torneios (wild card) costuma ser uma prática usual, no entanto, os convidado geralmente iniciam suas participações nos primeiros dias da competição. No caso de Sharapova, sua estreia ocorreu mais tarde para que não conflitasse com o período da suspensão que lhe foi imposta por doping.
Discutir esse assunto é um exercício enriquecedor para os que gostam de gestão e de esporte, pois, tanto o organizador do torneio como as jogadoras insatisfeitas possuem razão, dependendo, é claro, do ângulo com que o tema é analisado.
Se olharmos pelo prisma meramente esportivo, teremos as jogadoras cobertas de razão, afinal de contas, uma rival obteve um benefício após cometer uma falta gravíssima, ainda que tenha pago por ela.
Já se focarmos os aspectos relacionados ao business, a decisão tomada parece acertada, visto ter aumentado o nível técnico e a atratividade do torneio. Para corroborar na argumentação em relação à importância do retorno do investimento nesse tipo de iniciativa, vale lembrar que o detentor do title sponsor da competição, a Porsche, é uma das patrocinadoras de Sharapova.
Se quisermos ser mais abrangentes na análise, iremos deduzir que as próprias jogadoras que “reclamaram” são também de alguma forma beneficiadas. 
Explico: para ser compensador dedicar uma vida ao esporte é fundamental que existam competições que lhe tragam visibilidade – o que rende patrocínios - e boas premiações. Tais condições são satisfeitas na medida em que haja patrocinadores e assim se instaure um círculo virtuoso, que inclui mídia, empresas, e fãs, entre outros, como partes.
Dessa forma, a presença da tenista russa, mesmo contemplando a hipótese de ela vencer e ficar com a maior parte da premiação, é interessante para as demais, por mais paradoxal que possa parecer num primeiro momento.
Em outras palavras, sua força em termos de atratividade para as empresas investirem na modalidade é tão grande que, de todo o montante que ela arrecadou em sua carreira até o momento, cerca de apenas 10% é advindo de premiação, enquanto que o restante é obtido através de contratos de patrocínio.
Indo numa vertente mais extrema, cabe argumentar que a ausência dela abriria espaço para que outras tenistas “herdassem” seus patrocínios. Um cenário até possível, mas com grandes chances de não se concretizar, pois as empresas bem estruturadas em termos de marketing escolhem seus patrocinados em função da sinergia que esses apresentam em relação aos valores que pretendem associar as suas marcas, ou seja, uma eventual substituição pode dirigir a verba para outras modalidades esportivas, tipos de patrocínio ou até para outros setores da economia.
Que fique claro que os valores acima citados não podem ser resumidos à plástica da jogadora, aos seus resultados ou qualquer outra característica de forma isolada. A escolha, quando feita de forma responsável, leva em conta um conjunto de atributos.
Continuando na busca por justificativas para se tentar condenar a volta da tenista, resta apelar para os aspectos relativos à isonomia de condições entre competidores, o que, em tese, confere mais seriedade às disputas. 
Creio que não haja discordância nesse aspecto, o que nos permite fazer mais uma provocação: será que eventuais benevolências em relação aos princípios esportivos não podem vir a afastar patrocinadores e fãs da atividade?
A resposta para esse questionamento passa mandatoriamente pela definição do percentual que representa o entretenimento/negócios no composto que rege uma competição esportiva, pois quanto maior esse for, menor será a preocupação com o esporte propriamente dito.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Invasão estrangeira

A proliferação de pessoas vestindo camisas de times de futebol europeus, o espaço que esses clubes ocupam na mídia esportiva e a popularidade global de seus ídolos têm trazido à discussão um tema bastante interessante: o perigo dos clubes brasileiros perderem seus torcedores para os europeus.
Além de fascinante pelo aspecto do desbravamento de fronteiras, o tema é também proveitoso para a reflexão sobre o conceito de concorrência, seja essa direta ou indireta, pegando como base um clube de futebol.
São concorrentes diretos em termos mercadológicos, os demais clubes de sua praça, já que ofertam com boa distribuição e frequência, produtos como jogos ao vivo, camisas oficiais, títulos de associação, etc.
Podemos incluir entre os concorrentes diretos, os clubes de outros estados e países, tendo em mente que esses ficam em desvantagem por não oferecerem acesso aos jogos in loco, benefícios “tangíveis” de associação, nem a sensação de “pertencimento” a grupos próximos e com relevância populacional local.
Já os concorrentes indiretos são todas as demais possibilidades – excluindo as citadas acima - de gasto do dinheiro e tempo em detrimento ao clube por qual se torce.
Para complementação da parte conceitual da discussão, acrescento que não faz sentido falar em torcedores sem segmentá-los em função dos seus respectivos graus de consumo, ou seja, se ele é um heavy user, medium user, light user ou um mero simpatizante do clube que diz torcer.
Agora analisemos os clubes europeus. 
Não há como negar que fazem um excelente trabalho de internacionalização, o qual abrange patrocínios com empresas multinacionais, redes sociais globalizadas, comercialização dos direitos de transmissão - onde focam receitas e audiência -, além de iniciativas como embaixadas, escolinhas, jogos amistosos e pré-temporada em outros países.
No entanto, é importante atentar que como conhecedores do segmento, sabem que é impossível converter torcedores que tenham relativo grau de fidelidade. Até porque, a sensação de pertencimento citada anteriormente no artigo e a influência de família e amigos inibem qualquer possibilidade de mudança, o que faz com que os clubes estrangeiros dirijam seus esforços em busca dos “simpatizantes” ou de vendas pontuais.
Corrobora para essa dedução, o fato de um mesmo torcedor brasileiro ter e usar camisa de clubes rivais em seus respectivos países.
Tal racional me permite concluir que o perigo de se perder torcedores para os clubes estrangeiros é extremamente reduzido, até porque os clubes de futebol estão bastante enraizados na cultura do povo brasileiro. Racional que não se aplica ao basquete, por exemplo, já que é frágil a relação histórica time/torcida no país, o que faz com que muitos brasileiros torçam por equipes da NBA e mal assistam aos jogos da NBB (liga nacional de basquete).
Todavia, essa segurança em relação à retenção de seus torcedores não deixa os clubes brasileiros em situação absolutamente confortável, visto que qualquer consumo que se faça de outros produtos que não os seus, significa menos receita. Somado a isso, os games de simulação como pro evolution e Fifa, despertam conhecimento e anseios por produtos de times estrangeiros, principalmente na população mais jovem.
Sintetizando, não vejo os clubes europeus como “desbravadores” em busca de nossos torcedores, os vejo como organizações multinacionais que buscam simplesmente o consumo da população onde estejam de alguma forma presentes, e mais do que isso, vejo suas estratégias e táticas como um excelente benchmarking para os clubes brasileiros.



terça-feira, 18 de abril de 2017

Quando vencer não importa

As últimas rodadas da NBA têm nos colocado diante de decisões que, num primeiro momento, parecem ir contra os princípios e valores do esporte. Aqui me refiro à opção dos times que, sem chance de passar à fase dos playoffs, escalam reservas nesses últimos jogos.
Apesar de nunca admitirem, há uma forte suspeita de que essas decisões tenham o intuito de deixar a franquia nas últimas posições na tabela de classificação. Isso ocorreria porque, no draft – processo de escolha  dos jogadores para a próxima temporada – os times mais mal colocados vão para o sorteio que define a ordem de escolha com mais chances de serem os primeiros.
As franquias negam essa acusação com argumentos difíceis de serem contestados, os quais  vão da necessidade de dar experiência e testar os reservas a recuperar os titulares do desgaste da temporada.
Admito que, mesmo com todo o meu fanatismo pela ética em todos os ramos de atividade, trata-se de uma situação de difícil julgamento.
Ir contra o “poupar” coloca em xeque vários ídolos inquestionáveis do esporte, afinal não foram poucas as vezes que Michael Phelps e Usain Bolt disputaram séries eliminatórias abaixo de seus empenhos máximos. E o que dizer dos times de futebol que substituem seus melhores jogadores para não expô-los a lesões e punições? Quem nunca viu um triathleta ou maratonista cruzar a linha de chegada num ritmo mais lento quando o resultado já está garantido?
Enfim, exemplos não faltam em nenhuma modalidade esportiva, a diferença talvez seja a motivação que leva à decisão de se poupar, a qual pode estar ligada ao regulamento e/ou à preservação para uma próxima competição.
Saindo da esfera esportiva, temos o lado do consumidor que, caso tenha comprado um season ticket de um desses times da NBA ou ingresso para uma eliminatória no atletismo, por exemplo, não assistirá à melhor performance, embora provavelmente estivesse ciente desse risco.
Enquanto que pela perspectiva do patrocinador das equipes – a partir da próxima temporada a camisa poderá estampar uma marca - a inciativa de “poupar” não me parece interessante em função dos ataques que as franquias sofrem quando se utilizam das práticas que colocamos em discussão no texto, as quais podem recair para as marcas, ainda que traga maiores chances de melhores resultados no futuro.
Já sob o ponto de vista da competição, a intenção de se buscar o equilíbrio no caso da NBA certamente é satisfeita, porém, colocando em risco o sistema da disputa já que os últimos jogos antes dos playoffs podem ficar desinteressantes como produto.
E antes que se conclua que a fórmula das disputas precisa ser alterada, vale ressaltar que não existe critério perfeito, pois mesmo que se corrija um problema, aparecerão outras vulnerabilidades. Nesse contexto, não há como não trazer ao texto a discussão sobre a melhor forma de disputa do campeonato brasileiro de futebol: pontos corridos ou mata-mata.
Corrobora para uma eventual aceitação do “poupar”, o fato que mesmo as grandes corporações executam manobras gerenciais para se aproveitarem das brechas que a legislação concede, sem que isso possa ser considerado ilegal ou fraudulento, vide, por exemplo, as engenharias tributárias ou mesmo de logística. Enfatizando aqui que para se chegar a essa conclusão é mandatório que as manobras estejam disponíveis também para a concorrência.
Para finalizar um questionamento para reflexão: seria correto haver interferência externa na escalação de uma equipe?